“A reforma política não faz mais sentido”, diz Luiza Erundina

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Aos 82 anos, a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) lança hoje, dia 22, seu novo partido político, a Raiz Movimento Cidadanista,durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Formado por dissidentes da Rede Sustentabilidade, idealizado pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a Raiz deverá flertar com eleitores tradicionais do Partido dos Trabalhadores (PT) que se desiludiram com o governo da presidente Dilma Rousseff.

Ex-prefeita de São Paulo, Erundina foi coordenadora-geral da campanha de Marina Silva, à época no Partido Socialista Brasileiro, à Presidência da República em 2014. Afastou-se dela e do partido depois que Marina declarou apoio ao senador Aécio Neves (PSDB), no segundo turno.

Com diretórios organizados em 25 Estados, a Raiz é inspirada no Podemos, da Espanha, e Syriza, da Grécia, novos partidos de matriz socialista que se destacaram nos últimos dois anos na Europa. Para obter o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e se tornar a 36ª legenda brasileira, seus apoiadores terão de coletar 486 mil assinaturas.

ÉPOCA – A senhora ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) e agora, aos 82 anos, está criando um novo partido. O que a motivou?

Luiza Erundina – O PT foi o primeiro partido ao qual me filiei e pelo qual militei. Ajudei a construir aquele projeto. Por 17 anos, me identifiquei com esse partido. Até que percebi que, à medida que o partido ia conquistando poder, ia se afastando da sua vocação, que era ajudar o povo a se educar politicamente, a se conscientizar de sua força na busca por seus direitos. Minha experiência de governo não foi fácil no PT. Então decidi sair do partido e ir para outro, mas no mesmo campo. Costumava dizer que mudei de casa, mas na mesma rua. Naquela rua em que se vive seguindo os ideários socialistas.

 

ÉPOCA – E por que criar um partido agora?

Luiza Erundina – Lamentavelmente, o quadro partidário convencional vem se exaurindo. Em especial, por parte dessa crise política e institucional que vive o país. Aos poucos, percebi que a própria ideia da reforma política, pela qual eu luto também como deputada federal, não faz mais sentido. O sistema político como tal está totalmente desgastado, exaurido. Transformar uma coisa que já não serve mais não faz sentido. Não faz sentido gastar energia nisso. Por isso, estou criando novos espaços para contribuir para a renovação da política, para resgatar do sentido da política.

ÉPOCA – Como a senhora pretende fazer isso na prática?

Luiza Erundina – É exatamente essa tentativa de construir uma organização partidária que seja um processo, um movimento profundamente sintonizado com nossas raízes culturais, étnicas, históricas, que é a civilização brasileira que foi forjada nas suas bases e raízes pela cultura africana, indígena, europeus. Tudo isso é um amálgama que expressa a nação brasileira. O mundo está vivendo o esgotamento de um sistema capitalista, que é a causa de muitos problemas. Não há soluções fora da política. E isso passa pelos partidos.
ÉPOCA – Com a política brasileira impregnada de corrupção, há espaço para um partido assim em Brasília?

Luiza Erundina – Com certeza. Digo isso a partir da compreensão e manifestação pública dos jovens e da sociedade como um todo. Eles não se sentem representados por esses partidos. A política em geral, como prática social, está sendo rejeitada pelas novas gerações. A sociedade já não se reconhece em seus representantes. Apesar desse momento revoltante que vivemos, as manifestações estão ai: pela mobilidade, pelos direitos de gênero, pela luta das mulheres…. toda luta coletiva é uma ação política. Formatar isso num partido é a condição para que se transforme num instrumento a fim de conquistar poder. Um poder para usarmos a favor da transformação que a sociedade exige.

ÉPOCA – A senhora foi coordenadora-geral da campanha da ex-senadora Marina Silva à Presidência em 2014. Fundar um partido composto por dissidentes da Rede causou algum constrangimento?

Luiza Erundina – Estive na coordenação por determinação partidária, por causa da tragédia que dizimou o nosso candidato, Eduardo Campos. Isso não quer dizer que eu tinha um alinhamento com a Marina. Nunca estive para me filiar à Rede. Sempre militei com o PSB. Só estava cumprindo as tarefas do partido.

ÉPOCA – Os dissidentes da Rede que agora estão na fundação da Raiz se decepcionaram com a Marina pelo apoio ao senador Aécio Neves no segundo turno?

Luiza Erundina – Isso não é objeto de discussão. E os dissidentes não são a maioria na Raiz. Estamos todos motivados a criar esse outro espaço, e sempre convivendo com esses outros partidos, a Rede, o PSol (Partido Socialismo e Liberdade), o PSB…Com as forças que estão no campo progressista democrático do quadro partidário brasileiro.

ÉPOCA – Sua decepção com o PSB contribuiu para a decisão de ajudar a criar um novo partido?

Luiza Erundina – Tenho tido muitas divergências com o PSB. A principal delas foi quanto à decisão sobre o segundo turno nas eleições de 2014. Nosso projeto era justificado no fato de que a polarização PT e PSDB não era conveniente para fortalecer a democracia brasileira. Quando o PSB se aliou ao PSDB, ao meu ver precipitadamente, sem uma discussão mais ampla, deixou de ser coerente. Tampouco concordava com a política de alianças.

Época

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