18/07/2017 às 08h28
Saúde

Pesquisa revela lesões oculares graves relacionadas ao Zika; médico alerta

Um ano e meio após o início da emergência sanitária internacional de microcefalia relacionada à infecção congênita do vírus Zika, uma nova pesquisa coordenada por especialistas da Fiocruz apontou que bebês nascidos de mães infectadas durante a gravidez podem ter lesões oculares graves mesmo que não apresentem outras sequelas relacionadas à doença, como a microcefalia. O estudo foi publicado nesta segunda-feira (17/07) na renomada revista americana The Journal of the American Medical Association (JAMA), a partir de uma parceria com do Instituto Nacional da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) com a Universidade da Califórnia e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

As diretrizes atuais recomendam exames oculares em bebês com microcefalia, mas não inclui todas crianças potencialmente expostas ao vírus Zika no útero. “Encontramos lesões significativas em crianças que não apresentavam microcefalia. Tratam-se de alterações graves e quanto mais precoce for o diagnóstico, mais cedo a criança pode ser submetida a uma intervenção para habilitação da visão. Com esses achados, ressaltamos a necessidade de repensar os critérios de avaliação, de forma a incluir o exame de fundo de olho na triagem neonatal de todos os bebês com potencial exposição materna ao vírus”, destacou a oftalmologista pediátrica do IFF/Fiocruz e autora do artigo, Andrea Zin.

O trabalho envolveu a maior série de casos confirmados de exposição à zika com dados coletados sistematicamente. “Conseguimos fazer um estudo descritivo das anormalidades oculares, correlacionando-as com achados do sistema nervoso central, ocorrência de microcefalia e o momento da infecção materna a partir de uma coorte robusta, envolvendo bebês cujas mães tiveram resultado laboratorial positivo para a infecção na gestação”, informou Andrea Zin. Além de Andrea, participaram do estudo outros seis pesquisadores da Fiocruz: Maria Elisabeth Moreira, Zilton Vasconcelos, Marcos Vinicius Pone, Sheila Pone, Mitsue Aibe e Ana Carolina da Costa.

Das 112 crianças acompanhadas do nascimento até os seis meses de vida, 46 não tinham diagnóstico de microcefalia. No entanto, 10 delas apresentaram anormalidades oculares ao exame de fundo de olho. O número representa 42% das crianças com algum tipo de lesão oftalmológica, sendo questões referentes ao nervo óptico e a retina os achados mais frequentes. O estudo também revelou que a maioria das gestantes foi infectada ainda no primeiro trimestre (58%). Em 33%, a infecção aconteceu no segundo trimestre e, em 8%, no final da gestação, já no terceiro trimestre.

Os achados foram registrados por meio da RETCAM, câmera fotográfica especial adquirida pela Fiocruz no final do ano passado. O investimento foi fundamental para possibilitar o estudo e sua publicação. “Através deste equipamento, que fotografa em 360º o fundo de olho, conseguimos documentar as alterações com grande riqueza de detalhes, possibilitando a comparação de exames subsequentes. Com isso, foi possível não só refinar a capacidade de diagnóstico, como também tornar mais acessível a troca de informações entre especialistas”, finalizou a pesquisadora.

O oftalmologista Luiz Antônio Trigueiro Nóbrega, diretor do Instituto de Tratamento da Visão, na Capital, disse concordar plenamente com o resultado da pesquisa e a necessidade dos exames. “Os exames são imprescindíveis nos prematuros, não só o teste do olhinho, mas o de fundo de olho, que é mais detalhado. Os estudos mostram que 40% das crianças que nascem com microcefalia, relacionada ao Zika vírus, têm alterações anatômicas da formação da retina e do nervo óptico. Então existem alterações, e elas são bem frequentes, inclusive”, detalhou o médico.

Luiz Antônio ainda explicou como são detectadas essas alterações. “As alterações são detectadas por cicatrizes, atrofias, que são manchas no fundo do olho. A retina pode ter a cicatriz e, além disso, tem possibilidade de ter alterações do cristalino e glaucoma congênito. Então as crianças têm a necessidade de fazer esses exames mais detalhados”, completou.

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