27/05/2015 às 20h24
"Operação Sete Chaves"

Turmalinas paraibanas eram “legalizadas” no Rio Grande do Norte

Os primeiros indícios de lavra ilegal na área da empresa Parazul Mineração Comércio e Exploração Ltda surgiram ainda em 2010, a partir da coleta de informações e verificações “in loco” realizadas por agentes federais. Conforme relatório de investigação da Polícia Federal, os sócios formais da empresa, Ranieri Addario e Ubiratan Batista de Almeida, associaram-se informalmente a Sebastião Lourenço Ferreira, João Salvador Martins Vieira e ao afegão Zaheer Azizi para explorar e comercializar irregularmente a turmalina paraíba.Apurou-se que a comercialização da gema era coordenada por Sebastião Lourenço, por intermédio da empresa Mineração Terra Branca.

Após a extração sem autorização legal, feita pela empresa Parazul, os investigados encaminhavam a produção para a empresa Terra Branca, localizada em Parelhas (RN), para conferir aparente legalidade às gemas, já que a Terra Branca possui concessão de lavra garimpeira, mas a Parazul não. A Terra Branca remetia, então, os exemplares da turmalina paraíba para serem lapidados em Governador Valadares (MG), onde atuava João Salvador.

De Minas Gerais, as pedras eram enviadas para os Estados Unidos, Tailândia e Hong Kong, por João Salvador e Sebastião Lourenço, que declaravam para os órgãos de fiscalização um valor muito inferior ao valor real de um exemplar de turmalina paraíba. Cabia ao afegão Zaheer Azizi, residente na Tailândia, vender as pedras no exterior, através da Azizi Enterprises Co. Ltd e Azizi Gems and Minerals Co, e lavar o dinheiro obtido com o comércio ilegal de pedras preciosas. Para realizar a exportação das pedras, os investigados simulavam compra e venda entre as empresas Terra Branca e Liberty Gems, declarando a gema preciosa como se fosse turmalina comum, o que possibilitou a exportação do minério a um preço de 1% a 10% de seu valor efetivo. A Liberty Gems tem o mesmo endereço da Terra Branca, em Parelhas (RN).

Conforme apurado, a empresa Mineração Terra Branca é registrada em nome de Ricardo Marchetti Addario (detentor de 20% das cotas), irmão de Ranieri Addario, e em nome de Rômulo Pinto dos Santos (detentor de 80% das cotas do capital social), cunhado de Sebastião Lourenço. Contudo, as investigações revelaram que a empresa é de fato comandada por Sebastião e seus sócios ocultos, João Salvador e Zaherr Azizi. Para divulgar o negócio ilegal, os membros da organização criminosa participavam de eventos e feiras internacionais.

Num desses eventos, o Show Gem & Jewerly Exchange, realizado em Tucson, Arizona, agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) filmaram Sebastião, a filha Ananda Lourenço e João Salvador, negociando as turmalinas paraíba nos estandes das empresas Liberty Gems Inc e JS Gems.

Extensão transnacional – O caráter internacional das operações do grupo revela-se também nas constantes viagens realizadas. Apenas em 2013, João Salvador foi 22 vezes ao exterior. Já Sebastião Lourenço realizou 13 viagens internacionais. Conforme informações levantadas por agentes federais, os integrantes da organização desembarcavam em aeroportos, como Guarulhos (SP) e Recife (PE), em voos internacionais vindos de Houston (EUA), Tucson (EUA), Newark (EUA), São Francisco (EUA), Miami (EUA) e Johanesburgo (África).

Esquema de proteção – As investigações também comprovaram que a mineradora Parazul é guarnecida por forte aparato de segurança, encontrando-se sob vigilância permanente, inclusive com policiais militares, evidenciando o elevado grau de importância da exploração ali realizada. Durante fiscalização no local da mina, a própria equipe do DNPM relatou dificuldade de acesso, tendo que esperar por cerca de 30 minutos, na presença de dois seguranças, até que fossem atendidos por Ubiratan Batista de Almeida, sócio majoritário da Parazul, que se apresentou aos fiscais acompanhado por segurança armado. A presença de policiais fazendo a segurança da mina também foi confirmada nas interceptações de diálogo mantido entre Sebastião Lourenço e Aldo Filho, em que Aldo relata desentendimento entre os vigias da mina e policiais militares, que estariam “dormindo e descansando” em vez de fazerem ronda na mina.

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